Land Art de Cravo Neto, Bené Fonteles

Sobre a Land Art de Cravo Neto

Quando cheguei para morar em Salvador, em 1975, Cravo Neto estava imobilizado numa cama na casa dos pais, Lúcia e Cravo Jr, por conta de um sério acidente. Tinha acabado de concluir esta série de fotografias de arte com a paisagem da Bahia, que me mostrou em 1976. 

Ele utilizava pequenos botijões de gás que flutuavam sobre as águas de lagoas do litoral norte, ou os ocultava entre as vegetações circundantes. São esculturas de fogo das quais registra a veloz impermanência do elemento e seu diálogo com a água, as pessoas e uma natureza transpassada pela poesia do fugaz.

Sempre fui muito encantado por estas obras, assim como Cravo sou do signo de Áries, cujo elemento é o fogo, essa força ígnea nos alimenta o Espírito e Ele a arte, como uma chama eternamente acesa que nos esculpe alma e mente e nos molda a forma de sentir e estar no mundo.

Para Cravo Neto, esta inter-relação com a paisagem de sua terra era o cerne de seu gosto de realizar este trabalho, para fazer flutuar sobre ela um espírito através do qual ele procurava compreender a vera natureza. Mas, não só de uma forma estética, de efeito, mas do prazer de incorporar a força da fonte da qual jorravam formas incessantes, surpreendentes e até mágicas.

Sempre me vem à memória, quando contemplo essas imagens que muito me tocam, o momento em que Cravo Neto as mostrou sobre papel, no seu laboratório na Boca do Rio, me arguindo sobre o que sentia a respeito delas. O mesmo encantamento sempre ressurge ao revê-las e uma sensação de que Cravo Neto queria expressar a sua poética, que o fazia verdadeiro em tudo que era mais seu. Tudo isso era mais presença do que sua imagética a serviço da arte, que ele nunca separou da própria vida.

Sinto ainda que o Orixá que encarna o fogo, que é Xangô, dança mutável nessas imagens, faceiro e poderoso com todo seu imutável Axé luminoso para Iansã, Oxum, Obá e outras mulheres que são todas uma só com ele.

Estas obras têm um diálogo de continuidade das suas esculturas de acrílico e fibra de vidro com areia, cactos, plumagem e outros elementos. Elas parecem fazer um rito de passagem para o que ele faria depois do acidente que transformou em obra, e fluísse natural para a construção de uma outra obra em que esculpiria o ser humano que o provocasse, inquietasse e fascinasse sobre as velhas lonas. Deu a cada personagem escultórico o espírito mutável do fogo, que firmou em sua obra no Eterno Agora.

Bené Fonteles, Março 2021