A música é sagrada e purifica o sentimento dos homens, Angela Cunha

A música é sagrada e purifica o sentimento dos homens.

O sentimento de Mário Cravo Neto no mundo é de que somos os guardiões da natureza. Ele colecionava pedras: grandes, pequenas, da terra, do mar. A pedra era o símbolo. A morada dos deuses. Há inúmeras fotos com suas pedras preferidas e seus modelos. As fotos, ele decidia na hora. Descia as escadas de seu estúdio-laboratório com a Hasselblad na mão e muitos filmes. Ia para o grande estúdio onde sempre havia uma lona enorme pendurada. Arrumava tudo sozinho ou com a ajuda de Pedro, o empregado da família, e eu sempre ajudava na produção.

Tínhamos dois filhos pequenos, Lukas e Akira, e patos, cachorros, bichos que trazíamos da feira de São Joaquim para criar e fotografar. Tudo era uma festa. Não havia celular, computador ou internet. Éramos felizes e livres. De 1987 a 1992, talvez. Nesse tempo todos queriam posar. Na rua, na feira, no estúdio, na praia… Mário achava graça e tirava fotos à vontade. Os amigos, seus modelos, diziam que ele era um branco de alma negra. Pierre Verger era seu amigo e mestre a quem ele muito admirava e respeitava. O lema de Mário Cravo Neto era o mesmo de Brancusi, o grande escultor romeno:

“Criar como um Deus 

Governar como um rei 

Trabalhar como um escravo”

E, em família, todos trabalhavam. De manhã, ele ia para o estúdio-laboratório com uma caneca de café na mão, dando ordens: a Pedro, o fiel empregado da família; aos meninos, Lukas e Akira; e a quem mais achasse em seu caminho. Havia uma rotina e disciplina espartana em nossas vidas. De manhã ele cuidava da burocracia, das cartas para exposições, banco e sempre, lá pelas onze da manhã, recebia visitas: artistas jovens, jornais, entrevistadores.

Uma das fotos mostra um objeto estranho com o bailarino americano Clyde Morgan posando ao seu lado. Tal objeto tinha chegado anos antes do ferro-velho do amigo Pisca Pisca e ficava no grande estúdio guardado. Um dia Clyde veio à Bahia visitar os amigos e ligou pro Mário. Foi então convidado para fazer uma sessão de fotos. E tudo aconteceu sob uma iluminação primorosa. Era assim que criava.

Andava pelos seus domínios com um livro de Carl Jung, um de Goethe, outro de Kierkegaard, entre outros. A vida e o espírito lhe absorviam. Seus filhos mais velhos, Lua e Christian, que moravam na Dinamarca com a mãe, vinham nas férias escolares. Não escapavam das fotos.

Numa outra imagem, Bené Fonteles com as penas dos índios. Tudo aconteceu em 1990 quando Bené veio de Brasília nos visitar e almoçar conosco. Lukas tinha seis meses e Bené trouxe presentes: penas de araras vermelhas, uma faixa de Índia para carregar o bebê e doce de mamão verde. Trouxe o dicionário de Carole Naggar que estava com Vicente. Bené fala do futuro, da luz do ano 2011, da música que virá! 

Assim íamos vivendo, Mário sempre fotografando. Os retratos de Cravo Júnior, seu pai e amigo, são desta época. Ele adorava posar para o filho! A mãe, dona Lúcia Ferraz Cravo, também posou. Retrato tão expressivo quanto foi sua luta para criar quatro filhos e viver com o marido escultor, dramático. As fotos no grande estúdio aconteciam de dia e algumas vezes à noite. Tudo era espontâneo.

Depois das sessões de fotos, ele subia e revelava os filmes da Hasselblad. Enquanto secavam, ele ia pra outra sala onde tudo acontecia e colocava um bom jazz, uma Billie Holiday, Miles Davis e muitos outros. Tempo do disco de vinil. Ali naquela sala selecionava e trabalhava na sequência de seus livros ainda sonhados. Estava sempre fazendo um livro. O Eterno Agora começou nesta época e só foi impresso e lançado em 2002. Enquanto isso, Laroyê foi publicado.

No dia seguinte ele pegava os filmes revelados e, só com a luz vermelha acesa, ampliava as fotos que lhe agradavam. Depois de secas, ele selecionava o que ia ser ampliado em 50 x 60 cm e colocado em edições numeradas, assinadas e datadas com tiragens de 25 cópias. Geralmente era só uma! O resto ficava guardado.

Outro retrato é de mim com um pedaço quebrado de uma escultura de barro de Ramiro Bernabó, amigo de infância, artista, escultor, pintor, ceramista e filho de Carybé. Mário dizia que Ramiro era o único artista na Bahia. Lá no estúdio de Ramiro ele sempre achava preciosidades, como a panela de barro que seguro em outra fotografia desta série. A natureza e o tempo eram preciosos. Segundo Jung, o fundamento da natureza humana é o instinto.

Por último, Carlinhos Brown como modelo, usando como roupa uma criação do Mário feita com câmaras de caminhão, lá no estúdio de fotos de seu compadre, e amigo de muitos carnavais, Carlos Gordilho. A sessão de fotos era para a capa do disco de Brown. Poderia falar muito mais. Foram dezessete anos de estreita convivência. Para o Mário tudo que ele sentia era motivo para eternizar o agora.

Angela Cunha, Março 2021